Relato Especial: Os Paresi da Chapada

Em meu recorrido pelo centro-oeste brasileiro me deparei com uma nova realidade, nunca antes conhecida por mim: As reservas indígenas. Devo dizer que fiquei vislumbrado de conhecer um “Brasil selvagem”, onde a língua oficial não é o português, as casas não são quadrangulares, e os costumes singulares.

Os Parecis, povo indígena, vivem hoje espremidos entre centenas de milhares de hectares de soja, milho e gado. Com as tradições e costumes já muito alterados devido ao contato com o catolicismo, vivem ainda índios em sua plenitude. Banham-se em rios, trabalham de acordo com suas regras, e se conversam em Aruaque – sua língua materna. Alguns inclusive vivem em suas ocas e dormem em redes, depois de ver a novela e checar as redes sociais, é claro.

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Ao que consegui compreender das conversas com os caciques, e dos meus estudos acerca de suas origens, os Parecis começaram o contato intensivo com o homem branco só no início do século XX, quando Marechal Rondon, em expedição militar, passou pela região a construir o telégrafo para conectar a capital – Rio de Janeiro – à Amazonia Ocidental.

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O primeiro lugar que tive contato com os Parecis foi na cabeceira do rio Formoso, em Tangará da Serra/MT. Nessa aldeia fomos recebidos de forma atípica: de início o cacique queria nos cobrar um valor para a entrada, até que entendeu que estamos cruzando o continente a conhecer as nações latinoamericanas, e não nos resta muito dinheiro, além do necessário para comprar comida no caminho. Depois de explicar que estamos pedalando mais de três semanas pela Chapada dos Parecis, desde Nobres/MT, e só para chegar a essa aldeia foram quatro dias em estradas de barro de péssimo estado, o cacique Nelsinho nos proveu um local para acampar por duas noites.

Ao entender o nosso propósito – e ver as fotos que eu trazia de outros lugares do continente – a agitação foi geral. Os moradores da aldeia vinham, revezadamente, a nos conhecer e falar conosco em nosso acampamento. Os dois dias que estivemos lá pudemos absorver um pouco da cultura Paresi, arriscar umas palavras em Aruaque – sua língua materna -, e também contar um pouco do que vimos mais a lá das chapadas do centro sulamericano.

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Parecidos com os bolivianos não só em fisionomia, mas também em seu jeito fechado, conforme ganhamos intimidade, eles se abriram e levaram-nos gentilmente a conhecer um pouco de seus costumes e belezas naturais.

Sempre preocupado com nossa partida, o cacique do rio Formoso nos arrumou uma carona para nos levar diretamente ao asfalto. Uma gentileza que nos fez economizar mais de 20km de “empurrada” em estradas de areião.

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O meu segundo contato com os índios Parecis foi na estrada que liga Campo Novo dos Parecis/MT a Sapezal/MT. Ao contrário do que muitos me falavam acerca do pedágio dos índios, a única coisa que me cobraram foi explicações de onde eu vinha, e na verdade eu que saí ganhando água gelada e um tapinha das costas, “É muito coraji memo!”.

O pedágio dos Parecis é visto com maus olhos pelas pessoas da região, entretanto eu acho que é uma forma justa de angariar verba para melhorar a situação de vida, visto que a estrada, muito usada pelos fazendeiros para escoar a produção, passa por terra Indígena. As terras e ríos que outrora floresceram de fertilidade, hoje estão pobres e devastados pela ação dos latifundiários da soja e gado. Para viver nos dias de hoje, é necessário dinheiro.

Acampei em uma aldeia, 8km depois do pedágio, e lá fui muito bem recebido. Entendi a relação de troca, e com isso acabei ganhando um lindo colar, além de ser guiado no dia seguinte para uma cachoeira no rio Sacre.

No dia seguinte, ao olhar atento do cacique Narciso, parti de viagem. Posso dizer que fiquei muito feliz de ver pessoas simples que, no meio desse grande deserto criado pela ganância financeira, vivem felizes sob suas regras e costumes.

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Sobre Luís Cunha

Cidadão do mundo, formado em design e atualmente freelancer na área da ilustração e do design gráfico. Fale comigo -> luisbcunha@gmail.com portifólio -> behance.net/luiscunha
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